Psicoacústica (1988) – Ira!

Pagina central e o óculos 3D

Data de lançamento: 11 de Maio de 1988
Duração: 34:31
Faixas: 8 faixas
Estilo: BRock

Lado A:
Rubro Zorro
Manhãs de Domingo
Poder, Sorriso, Fama
Receita Para Se Fazer Um Herói

Lado B:
Pegue Essa Arma
Farto do Rock ‘N’ Roll
Advogado do Diabo
Mesmo Distante

Produção: Ira! e Paulo Junqueiro
Gravadora: WEA

Este mês completa 30 anos do terceiro e mais ousado disco já gravado pela banda paulistana Ira! Ninguém tinha feito algo parecido com Psicoacústica até a ocasião de seu lançamento. Nasi (voz), Edgard Scandurra (guitarra), Ricardo Gaspa (baixo) e André Jung (bateria) começaram a conceber o álbum em novembro de 1987, mas a inspiração veio após a participação do quarteto paulista no festival Hollywood Rock em janeiro de 1988. No show da Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro, eles foram tirados do palco pela organização do evento após 30 minutos de show e, de raiva, o grupo destruiu o seu camarim. Edgard quase acertou um dos promotores do evento com sua guitarra.

Antes do show em São Paulo, o guitarrista denunciou, na coletiva com a imprensa, que eventos como o Hollywood Rock dispensavam mais atenção e destaque às atrações internacionais e pouco se importavam com as nacionais. A partir daí, o Ira! nunca mais foi chamado para se apresentar em grandes festivais no Brasil, se tornando uma espécie de patinho feio do rock brasileiro.

 Nessa época, os membros do Ira! fugiram da tendência mod que os influenciou nos dois primeiros discos, Mudança de Comportamento (1985) e Vivendo e Não Aprendendo (1986), sendo, esse último, o de maior sucesso deles.  O vocalista Nasi e o baterista André Jung estavam começando a se interessar pela cultura hip hop e por artistas do gênero, como Run-DMC e Grandmaster Flash. Os dois acabaram produzindo o primeiro disco de hip hop do Brasil, a coletânea Hip Hop: Cultura de Rua (1988), que revelou Código 13, MC Jack, O Credo e a dupla Thaide & DJ Hum.

Já Scandurra gostou da ideia de ouvir novos sons e se interessou na música eletrônica de Brian Eno. Outro interesse do quarteto surgiu após assistirem ao filme brasileiro O Bandido da Luz Vermelha (1968), que foi dirigido por Rogério Sganzerla e conta a história do criminoso brasileiro João Acácio Pereira da Costa (vivido no filme pelo falecido Paulo Villaça), conhecido, durante a década de 1960, por ter praticado vários assaltos noturnos nas mansões paulistas, sempre acompanhado de uma lanterna que emitia uma luz vermelha.

Avessos às críticas, os pobres paulistas se trancaram no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, e criaram um disco despretensioso, sem agradar as exigências da mídia, do jeito que eles planejaram e despejando toda a sua raiva nele. Eles mesmos quiseram produzir esse álbum e contaram com a ajuda do português Paulo Junqueiro. Psicoacústica foi uma mescla de hip, hop, reggae, mod e outros gêneros menos relevantes e contém faixas que duram até cinco minutos.

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Outro atrativo foi a utilização de sampler (inédito para o Brasil, na época). Além de que, junto do disco, veio de brinde um óculos 3D, para que os efeitos visuais na capa saltassem aos olhos de quem o comprasse. Esse disco chegou à minha casa dois anos depois de lançado e, como uma criança que era na época, eu brinquei tanto com esses óculos que o acessório acabou por se esfarelar. Somente anos depois que me interessei pra valer pelas suas canções.

 A faixa que abre o Psicoacústica é Rubro Zorro, que traz um riff rasgado de Edgard Scandurra e, sua pesada introdução, nada lembra o que eles faziam antes. Nela contém o sample de uma das falas do já citado filme O Bandido da Luz Vermelha (“trata-se de um faroeste sobre o terceiro mundo”). Para os brasileiros, a canção fala sobre o mencionado João Acácio Pereira da Costa, mas, na verdade, fala mesmo é do americano Caryl Shesman, que também praticava assaltos à noite e acompanhado de uma lanterna com a luz vermelha nos Estados Unidos. Caryl foi sentenciado à pena de morte e morreu na câmara de gás, em 2 de maio de 1960. Ele inspirou o Luz Vermelha brasileiro, que foi preso em 1967 e condenado a 351 anos de prisão por ter praticado quatro assassinatos, sete tentativas de homicídio e 77 assaltos. Mas como, no Brasil, a pena máxima é de 30 anos, João Acácio foi solto em 1997 e voltou para a sua cidade natal, Joinville, em Santa Catarina. Logo, mostrou que não se regenerou e, no dia 5 de Janeiro de 1998, após criar uma confusão em um bar em Joinville, foi assassinado com um tiro pelo dono do estabelecimento, o pescador Nelson Pinzengher, que salvou um parente que seria atacado pelo bandido. Além do filme, a história de João Acácio foi contada no programa Linha Direta Justiça da TV Globo em 2006, dessa vez, interpretado por André Gonçalves, e essa canção do Ira! encerrou o programa.

Videoclipe alternativo que fizeram com cenas do filme O Bandido da Luz Vermelha (1968):

A segunda faixa é Manhãs de Domingo, que começa com teclado a cargo de Edgard Scandurra e sugerindo uma missa na igreja. Após 30 segundos de introdução, vem o riff de guitarra junto de um teclado fantasmagórico, o baixo de Gaspa e a bateria de André, que socou o seu instrumento pra valer na canção. Nasi e Edgard dividem os vocais dela.

Poder, Sorriso, Fama é a terceira faixa do disco e a guitarra de Edgard continua assombrosa. A sombria marcação de baixo de Gaspa e bateria de André também marcam presença, assim como o vocal sussurrado de Nasi.

Última faixa do Lado A, Receita Para Se Fazer Um Herói é uma viagem musical que o Ira! faz no reggae, bem ao estilo The Clash (uma das maiores influências do grupo). Os teclados ficaram a cargo de Roberto Firmíno (não confundir com o jogador de futebol) e Don Harris ficou encarregado do solo de trompete. Um trecho da letra foi cedido pelo Soldado Esteves, que foi colega de exército do Edgard Scandurra. Esteves foi creditado e perto do Psicoacústica chegar ao mercado, o soldado não foi encontrado para fins de autorização da divulgação da faixa, obrigando a banda a incluir na lista de agradecimentos a pergunta “Esteves cadê você?”.

O Lado B do disco é aberto com Pegue Essa Arma, que também contém o sampler de outra fala do filme O Bandido da Luz Vermelha (“o terceiro mundo vai explodir/quem tiver de sapato não sobra”). Ela começa com o baixo de Gaspa e a bateria de André em um ritmo que lembra um pouco a canção tema do personagem 007. Foi a primeira canção de divulgação do disco que a WEA escolheu e a gravadora estava indecisa devido às faixas serem longas e complexas. A segunda faixa do Lado B é Farto do Rock ‘n’ Roll, que é cantada por Edgard. Um rockão que faz lembrar o Led Zeppelin. Nasi não quis cantar a canção por considerar a letra muito agressiva, mas foi responsável pelo scratch na faixa (aqueles riscados que os DJs fazem nos discos de vinil).

Videoclipe de Pegue Essa Arma produzido pela extinta TV Manchete:

A penúltima faixa é Advogado do Diabo, que começa com um pandeiro que, muitos ao ouvirem, pensam que o Ira! optou por se aventurar no samba. Em seguida, entra a guitarra, o baixo e a voz de Nasi, que a interpreta em ritmo de rap. Cantar rock com vocais rapeados se tornou novidade em 1986, quando o grupo Run-DMC regravou Walk This Way do Aerosmith, com a participação da banda. Tornou-se uma característica de grupos como o Faith No More e o Red Hot Chili Peppers que, junto do Sepultura, influenciariam a geração nu-metal.

Já aqui, no Brasil, essa canção do Ira! influenciou a geração do rock brasileiro dos anos 1990 como Planet Hemp, Charlie Brown Jr. e Chico Science & Nação Zumbi. Aliás, o grupo pernambucano considera esta, a faixa primordial para o nascimento do movimento Manguebeat, tendo inclusive a executado em seus shows. A canção é encerrada com mais um sampler, dessa fez de José de Paiva Neto, líder da LBV (Legião da Boa Vontade) em um discurso feito em uma rádio AM: “Não adianta, tem que haver rico, tem que haver pobre; tem que haver negro, tem que haver branco; tem que haver patrão, tem que haver empregado; por que o povo quer assim” e, em seguida, escuta-se uma porta batendo.

O disco é encerrado com a belíssima Mesmo Distante, que lembra o Pink Floyd na fase Syd Barrett. Nela, Edgar toca violão, craviola e a caixa da bateria (recordando seus tempos de baterista d’As Mercenárias), além, é claro, da sua guitarra com efeitos.

Lado A

A versão em fita K7 de Psicoacústica possuía uma faixa bônus, a versão ao vivo de Não Pague Para Ver, que foi gravada no citado festival Hollywood Rock. Apesar de inovador e extremamente experimental, Psicoacústica só conseguiu vender 50 mil cópias (grande para uma banda iniciante e pouco para o Ira!), não superando as 300 mil do anterior Vivendo e Não Aprendendo. Existem alguns motivos para o álbum ter encalhado e um deles é a difícil definição de estilo, nada convencional para ser escutado na rádio e na TV.

A pedido do vocalista Nasi, o cineasta Rogério Sganzerla aceitou ceder algumas falas do filme o Bandido da Luz Vermelha para samplearem as faixas Rubro Zorro e Pegue Essa Arma. Em troca, o diretor pediu para dirigir um videoclipe da banda. A WEA concordou, mas, na última hora, Sganzerla pediu muito dinheiro para rodar o vídeo, fazendo com que a gravadora mudasse de ideia. Sganzerla entrou na justiça contra o Ira! e a WEA para impedir o lançamento do disco.

Receita Para Se Fazer um Herói foi a segunda faixa de divulgação do disco. Co-autor da faixa, o soldado Esteves apareceu após atender a mensagem “Esteves cadê você?”, contida nos agradecimentos, na capa do álbum. Ele exigiu uma grana alta e ameaçou entrar na justiça contra o Ira!. Semanas após o lançamento de Psicoacústica, na sessão de cartas da extinta revista Bizz uma leitora acusou o Ira! de plágio, pois viu semelhanças da letra na poesia do escritor português Reinaldo Ferreira. A banda encontrou a viúva do escritor e, assim, evitou outro futuro processo, prometendo creditá-lo no álbum, derrubando a farsa de Esteves. O crédito a Ferreira veio primeiro na regravação da faixa no MTV Ao Vivo (2000) e, depois, na versão em CD de Psicoacústica lançada em 2001.

2 é demais

O disco, de fato, não fez sucesso e jogou o Ira! no ostracismo, mas isso é o de menos. O tempo acabou sendo um forte aliado para o Psicoacústica se tornar um dos discos mais inovadores da indústria fonográfica brasileira. Depois dele, o Ira! gravou para a WEA os discos Clandestino (1990), Meninos da Rua Paulo (1991) e Música Calma Para Pessoas Nervosas (1993). O quarteto encontrou abrigo na hoje extinta Paradoxx Music, onde gravou dois álbuns: 7 (1996) e Você Não Sabe Quem Eu Sou (1998). Nessa época eles viram as canções de maior sucesso deles virarem coletâneas nas mãos da WEA. A mesma gravadora lançou, nos anos 1990, a série 2 é Demais, onde unia dois discos em um CD e o Psicoacústica dividiu espaço dele com o Meninos da Rua Paulo. Além destes, o Mudança de Comportamento e Vivendo e Não Aprendendo também foram unidos pelo 2 é Demais.

Em 1999 o Ira! voltou ao chamado mainstream com o disco de covers Isso é Amor, o primeiro com a também extinta gravadora Abril Music. Sua turnê rendeu o primeiro DVD e primeiro disco ao vivo intitulados MTV Ao Vivo (2000), que já foi mencionado anteriormente. Em 2001, eles voltaram a tocar em um grande festival, a terceira edição do Rock in Rio, onde dividiram o palco com os conterrâneos Ultraje a Rigor. Sem contar que os seus três primeiros discos ganharam a sua merecida versão em CD, cuja remasterização foi de responsabilidade de Charles Gavin (ex-Ira!) que, na época, era baterista dos Titãs. Ao contrário dos dois primeiros, Psicoacústica não teve faixa bônus no CD.

Windson Alves

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