Trama Fantasma

Phantom Thread é uma referência a um curioso fenômeno da era vitoriana, caracterizado pelo comportamento das costureiras do leste de Londres que, completamente exaustas após um longo dia de trabalho, continuavam simulando os movimentos de costura em casa, trabalhando continuamente em fios inexistentes com as mãos. Também alude ao fato de que, com sua habilidade extraordinária com as linhas, o protagonista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), faz um trabalho artístico impecável ao criar seus vestidos deslumbrantes, como se evocasse e fosse guiado por uma entidade divina. Também diz respeito à figura da mãe de Woodcock, falecida há algum tempo, mas cuja influência continua tendo forte atuação em sua vida, profissão e relacionamentos amorosos. Por fim, linha fantasma é o laço que une os dois protagonistas (e, não se engane, o protagonismo é realmente dividido), de maneira praticamente imperceptível, inexplicável e impenetrável por quem observa a relação de fora.

Intrigante desde o título, Trama Fantasma, infelizmente, perde essa genialidade no nome em português. Talvez Fio Fantasma ou Linha Fantasma passassem a impressão errada ao espectador de um filme de terror sobre uma ligação telefônica ameaçadora. Mas, de qualquer forma, o título brasileiro não contempla o brilhantismo do enredo que versa, de maneira exemplar, original e profunda, acerca do caráter tóxico e obsessivo dos relacionamentos.

Este é apenas o oitavo longa da carreira do cineasta Paul Thomas Anderson, acostumado à desconstrução narrativa, à subversão de gêneros, a exploração minuciosa de personagens. Embora suas escolhas estéticas evidenciem seu estilo e assinatura, o diretor jamais se rende a uma zona de conforto, apresentando uma notória diversidade de temas nos longas que integram sua filmografia, sempre buscando algo novo e surpreendente e compondo obras inquietantes na forma e conteúdo.  PTA só produz um filme se tiver algo novo a contar.

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Em sua segunda parceria com o diretor, o ator Daniel Day-Lewis também não possui muitos títulos no currículo. Isso por ser conhecido pelo rigor na composição de seus personagens, pela ética de trabalho insana e um processo de intenso de elaboração das figuras que retrata – ele pede aos cineastas com quem trabalha, meses de preparação antes de entrar no set, de modo que possa chegar o mais próximo possível da perfeição ao interpretar um personagem. Seus três Oscars de melhor ator não são à toa; sua entrega é visceral.

Por isso mesmo, Phanton Thread encontra na figura de seu cineasta e de seu protagonista, os tipos ideais para apresentar na tela um profundo e preciso retrato do perfeccionismo e da obsessão. E é feliz ao introduzir uma personagem que representa nada mais do que a ruptura nesse cenário.

Na década de 1950, o aclamado e workaholic estilista Reynolds Woodcock, trabalha ao lado da irmã Cyril (Lesley Manville), e possui uma clientela invejável dentre membros da realeza e da elite britânica que vestem trajes exclusivos confeccionados por ele. Woodcock também coleciona relacionamentos passageiros com mulheres que servem como sua fonte de inspiração até o esgotamento. Então, ele parte para outra aventura, sem nunca se envolver seriamente com ninguém. Esses casos funcionam apenas como uma parte vital na produção de suas peças. O profissional vem sempre em primeiro lugar. Sistemático e sem tato social, o estilista não permite que invadam seu espaço e se atrevam a alterar a sua rigorosa rotina.

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Tudo muda quando decide eleger sua nova musa e encontra Alma (Vicky Krieps), uma simples garçonete, de traços suaves e modestamente expressivos. Ao invés de se conformar com a condição de novo manequim favorito do estilista, ela surge disposta a transformá-lo, a trazer um pouco de caos à  vida regrada e ao ambiente organizado de Woodcock, a desestruturá-lo e fazê-lo fugir ao controle. Diante da relutância de seu amante, e da determinação em não se tornar mais uma em sua vida, inicia-se um ardiloso e contundente jogo de poder.

Com o perdão do trocadilho, Anderson costura sua trama com precisão cirúrgica, acertando no contraste entre a elegância dos requintados vestidos e a truculência do relacionamento entre Alma e Reynolds. A maior parte da ação ocorre dentro da mansão em que o protagonista vive e para onde leva sua musa para morar. O castelo de conto de fadas, logo se mostra um ambiente opressivo. E é exatamente aí que as primorosas fotografia e mise-en-scène se destacam. Abusando de planos fechados, planos detalhes e close-ups, enfatizando as expressões faciais em detrimento de diálogos expositivos, o diretor é seguro e magistral na composição do universo particular do protagonista – luminoso e sofisticado em suas formas, ângulos e cores, é como se uma atrevida Alma jogasse tintas demasiadas em suas telas sóbrias, provocando ruídos altíssimos para quebrar o silêncio sagrado dos momentos de criação do artista e, por fim, bagunçando todo o seu espaço meticulosamente alinhado.

De maneira rara e original, Trama Fantasma narra um jogo de poder em que nenhuma das duas partes se acomoda, ou está disposta a se anular pela outra. Cada um apresenta e define bem suas exigências, procurando demarcar território. Há uma busca insaciável por controle e uma briga em que não existem vencedores ou perdedores. Ambos cedem, ainda que a contragosto, em momentos pontuais da narrativa. Ainda assim, situados em lados opostos de um mesmo tabuleiro, são tenazes em procurar virar o jogo, cada um a seu favor, construindo uma relação doentia de codependência. A disputa é violenta, mas ocorre, sobretudo, em um plano psicológico. O que não quer dizer que a ameaça física esteja ausente. Ao contrário, ela é quase letal.

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A trilha sonora, praticamente constante, assinada pelo músico Jonny Greenwood, guitarrista da banda britânica Radiohead, impressiona ao acompanhar o crescendo do filme. Além de injetar dinamismo à trama, ilustra perfeitamente a atmosfera de tensão estabelecida pelo conflito entre Reynolds e Alma, captando suas emoções e  conferindo ora sutileza, ora densidade ao longa.

Novamente, Paul Thomas Anderson nos presenteia com um estudo da complexidade humana, mergulhando na estranheza de personagens e em um enredo de difícil digestão, composto de inúmeros nuances, afinal, o diabo está nos detalhes. Recusando-se a entregar uma narrativa convencional e mastigada, o roteiro passa longe de qualquer solução previsível.

Com a mesma habilidade notável com que reinventou o conceito de comédia romântica (Embriagado de Amor), transformou os bastidores da indústria pornô em um cult indispensável (Boogie Nights) e narrou os embates entre um líder de uma estranha seita religiosa e seu insurgente discípulo (O Mestre), Anderson provoca o espectador a refletir mesmo depois de os créditos de Trama Fantasma tomarem a tela.

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O talentoso artesão, tão perfeccionista e excêntrico quanto seu personagem principal, domina como poucos a arte de se fazer cinema. E se esse é o filme que Daniel Day-Lewis escolheu para ser o último de sua brilhante carreira antes de se aposentar, afirmo seguramente que foi uma sábia decisão.

★★★★

Andrizy Bento

Uma consideração sobre “Trama Fantasma”

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