Três Anúncios Para um Crime

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Buscando justiça para a filha, brutalmente assassinada e cujo caso permanece sem solução – aparentemente, devido à inércia da polícia local  – a impetuosa Mildred Hayes (Frances McDormand) aluga três outdoors em uma estrada pouco movimentada – frequentada somente por quem estiver perdidos ou for muito idiota – que acabam por perturbar a paz de toda a cidade de Ebbing, no estado do Missouri (essa sentença leva ao ótimo título original), especialmente do Delegado Willoughby (Woody Harrelson) – encarregado da investigação – e de todos os envolvidos direta ou indiretamente com Angela Hayes (Kathryn Newton).

Tentando a todo custo evocar o trabalho dos Irmãos Coen, mas falhando em suas intenções, o cineasta Martin McDonagh não sustenta bem a história; falha no ritmo e especialmente no timing cômico, que é constrangedor para dizer o mínimo. Toda a tentativa de humor soa equivocada, forçada e mal inserida – salvo uma ou duas piadinhas. O problema é que o filme se vende como um exemplar de drama inquietante, permeado por um humor politicamente incorreto. No entanto, a comicidade soa fora de contexto e até mesmo agressiva em uma trama que retrata a indignação e revolta de uma mãe diante da falta de resolução de um crime bárbaro cometido contra sua filha, que inclui estupro e assassinato.

O roteiro tem boas ideias e a premissa é até bacana. Os mecanismos para sua execução na tela é que são um desastre. As maneiras utilizadas para justificar comportamentos problemáticos e preconceituosos, por exemplo, recorrendo a perdas de entes queridos ou a uma doença terminal, são bem esdrúxulas. Chega a ser ofensiva a falta de tato e de sutileza tanto do texto quanto da direção. Sem falar no fato de que todo o roteiro é estruturado com base em coincidências e conveniências, algo irritante. 

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O longa traz atuações eficientes e até mesmo alguns bons e funcionais momentos, mas são poucos em meio a tanto descuido. Infelizmente, o que permanece na memória, ao término da sessão, são algumas das piores cenas. Há uma sequência ilógica, focada no xerife Willoughby que parece transferir o protagonismo de Mildred para ele. A carta, escrita pelo policial e lida por sua esposa (Abbie Cornish), é um momento até interessante, mas prejudicado por uma trilha sonora solene e o tom desmedidamente dramático, conferindo uma aura de heroísmo inexplicável a um personagem que se mostrava exausto, apático e desistente diante da doença e do fracasso em solucionar o assassinato de Angela Hayes. O talento interpretativo de Woody Harrelson é mal aproveitado. Embora o ator tenha acertado na composição do personagem.

Frances McDormand está bem, mas o texto, não raro, insiste em transformá-la em uma caricatura. Mérito apenas da atriz ao fugir do estereótipo, visto que o roteiro não ajuda. Outras passagens são pura vergonha alheia, como a cena do jantar entre a protagonista e o personagem de Peter Dinklage, outro ótimo ator desperdiçado, com um arco desprezível que nem tinha razão de existir na trama. Toda a história de Mildred com ex-marido e a atual namorada dele, bem mais jovem, toma muito tempo de tela e é igualmente desnecessária e trivial.

E nem me deixem mencionar a sequência do incêndio na delegacia…

Sam Rockwell consegue atingir com louvor o seu intento na pele do policial Dixon, que é, justamente, deixar o espectador com raiva. Dixon é patético, pouco inteligente, violento, explosivo, racista e ainda mora com a mãe, o que é motivo de chacota para a cidade, mas ele parece idiota demais para perceber. No final – pasmem! – alcança a redenção depois da forçação de barra do roteiro em humanizá-lo e fazê-lo parecer tão vítima quanto o homem negro que espancou e é mencionado de maneira recorrente ao longo do filme. Falando em Rockwell, alguém me explica a cena protagonizada por ele em que aparece ouvindo um clássico do Abba em seus fones de ouvido? Divertida, mas que, simplesmente, não cabia ali.

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Perpetuando o extremismo como uma solução sempre válida, o longa leva à galhofa involuntária, tornando-o irremediavelmente burlesco. Três Anúncios Para Um Crime bem poderia se chamar, aqui no Brasil, de Anúncio Para uma Piada de Mau Gosto.

★½

Andrizy Bento

2 comentários em “Três Anúncios Para um Crime”

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