The Post – A Guerra Secreta

Em meio a indicados mais audaciosos, seja em termos de estilo, narrativa ou visual, The Post – A Guerra Secreta se assume como o típico Oscar bait, dirigido por um cineasta duas vezes premiado com o careca dourado de melhor diretor e tendo em seu elenco dois vencedores em categorias de atuação do prêmio da Academia: Meryl Streep, duas vezes consagrada com o Oscar de melhor atriz e uma como atriz coadjuvante; e Tom Hanks, vencedor por duas vezes do prêmio de melhor ator. Além de suas vitórias, tanto o cineasta quanto os dois atores colecionam indicações, inclusive neste ano. Além disso, The Post é baseado em um momento histórico decisivo para os Estados Unidos, envolvendo jogos políticos, guerra e imprensa.

Diante do padrão Oscar, começou bem cotado quando a temporada de premiação teve início. Acabou eclipsado por outros títulos. Porém, apesar disso e do tom assumidamente acadêmico – mais formal e tradicional em seu conteúdo e embalagem, este passa longe de ser um filme modorrento, como costumam ser outros exemplares do gênero. The Post tem seu brilho ao retratar a história real dos jornalistas do The Washington Post que, audaciosamente, e apostando nos princípios que regem sua profissão, tentam, a todo custo, publicar documentos confidenciais que contém revelações bombásticas acerca do envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, os Pentagon Papers, no início da década de 1970.

O furo de reportagem é dado primeiro pelo The New York Times, a partir de um detalhado relatório enviado por um ex-colaborador do governo. O presidente Nixon, no entanto, consegue impedir que o veículo dê continuidade à reportagem e vaze as informações contidas em documentos sigilosos sobre o conflito, ameaçando processá-los, o que, por si só, constitui uma violação à liberdade de imprensa. A princípio, existe a competitividade no ramo editorial entre o New York Times e o Washington Post. Mas, à medida que a narrativa avança, percebemos que isso vai muito além de uma briga por um furo de reportagem. O fundamental é a prestação de serviço à população

Após a corajosa decisão da editora Katharine Graham (Streep) – e do auxílio e colaboração de seu time de jornalistas, incluindo Ben Bradlee (Hanks) e Ben Bagdikian (Bob Odenkirk) – de publicar os documentos do Pentágono em plena era Nixon, sob o risco de perder anunciantes e enfrentar a corte judicial, o Washington Post não só passa ser tratado como igual ao NYT, como o fato desencadeia a união da imprensa em não se privar de reportar a verdade sobre o caso nas páginas de seus noticiosos. The Post é uma válida aula de história que não deixa de romantizar algumas passagens, o que é válido em se tratando de um drama histórico para ser exibido nas telonas. No entanto, o acuro de grande parte do que é representado na tela, impressiona.

Eficiente em sua estrutura narrativa e montagem, Spielberg acerta tanto no foco político quanto nas subtramas que destacam o lado mais intimista de Katharine Graham, a primeira mulher a ser editora-chefe de um jornal de grande porte e, posteriormente, vencedora do Pulitzer. Meryl Streep transita com extrema naturalidade entre o profissional e o pessoal da personagem. Acerta no tom ao demonstrar fragilidade diante da decisão mais importante de sua carreira – que pode vir a afundar o jornal que foi propriedade de seu saudoso pai e também já passou pelas mãos zelosas de seu falecido marido – e ostenta uma determinação inabalável quando dá a ordem ao astuto Bradlee de finalmente publicar os documentos do Pentágono.

Claro que em se tratando de uma produção com o selo Spielberg de qualidade, o filme é visualmente notável, desde a perfeita reconstituição de época a detalhes presentes nos figurinos dos atores. Mas diferentemente de um Lincoln ou Ponte dos Espiões da vida, o filme não se rende a um tom ufanista e solene e opta por ter mais alma, por instigar o espectador. Ao invés de um final mostrando seus heroicos protagonistas frente à uma bandeira do país, o cineasta fecha muito bem seu filme fazendo um gancho com o escândalo de Watergate que levou à iminente renúncia do presidente da época, Richard Nixon, e consolidou de vez o nome de Graham no meio impresso.

E em tempos sombrios, em que o jornalismo se mostra cada vez mais uma profissão pautada pela publicidade, marketing e propaganda, atendendo de maneira recorrente a interesses de grandes corporações, com (outrora) importante portais nacionais limitando-se a reproduzir notícias veiculadas em tabloides de quinta lá fora, e a expansão das chamadas fake news, o clímax do longa dá até aquela pontada no peito que transita entre o orgulho e a melancolia ao ver o compromisso moral e ético de noticiar a verdade à população – que é o dever supremo de um jornalista e o direito incontestável do receptor – vencer a batalha.

Pena que isso parece ter sido esquecido em um passado nem tão remoto, mas que soa tão distante.

Adendo 1: Apesar de ambientado na década de 70 e retratando outro governo, o filme não deixa de ser atual e ecoar a constante batalha travada entre o presidente Donald Trump e a mídia, recentemente.

Adendo 2: Felizmente, este se aproxima mais de Todos os Homens do Presidente de Alan J. Pakula – um dos melhores filmes com o tema jornalismo – do que do medíocre O Jornal de Ron Howard.

★★★

Andrizy Bento

2 comentários em “The Post – A Guerra Secreta”

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