Caçada Até à Última Bala

Caçada até a ultima bala

Desde que os filmes derivados de histórias em quadrinhos mostraram ser um negócio lucrativo, figurando nos primeiros lugares do ranking de maiores bilheterias, os estúdios cinematográficos não perderam tempo em investir nesse filão. Até duas décadas atrás, adaptações cinematográficas de HQs tratavam-se de raridades que surgiam na telona de tempos em tempos. Agora, é comum Hollywood lançar de três a quatro longas baseados em quadrinhos por ano. É um fato que a nona arte vem influenciando a sétima arte desde seus primórdios. Mas o fenômeno inverso também vem acontecendo com certa frequência.

Os próprios filmes de super-heróis têm inspirando as atuais edições de HQs. Uma significativa parcela do público mais jovem conheceu os emblemáticos personagens dos quadrinhos através do cinema, portanto, é pensando nela que as editoras decidiram rebootar seus títulos, usando os filmes como referência, modificando a origem de inúmeros personagens e invalidando muitos dos conceitos apresentados em histórias clássicas.

Positiva ou negativamente, o cinema pautou os quadrinhos.

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Mas indo além dos reboots de personagens consagrados de grandes editoras, como Marvel e DC Comics, e entrando na esfera dos quadrinhos independentes, há obras que se apropriam de elementos cinematográficos para compor sua narrativa e visual. É o caso de Caçada Até a Última Bala, publicação da Korja dos Quadrinhos, escrita e ilustrada por Marcus Vinicius Rodrigues, o Marvin. O título é uma inusitada combinação de gore, western e sci-fi, que presta um tributo a clássicos cinematográficos das décadas de 1970 e 1980 como Mad Max e os longas de Sergio Leone. As próprias capas da publicação aludem a filmes como Scarface, de Brian de Palma, Os Garotos Perdidos de Joel Schumacher e Nascido Para Matar de Stanley Kubrick. Já a narrativa episódica, por vezes fragmentada, ecoa Quentin Tarantino.

Além do cinema, há claras influências narrativas das graphic novels Preacher de Garth Ennis Steve Dillon (especialmente no arco do Reverendo) e Sin City de Frank Miller (a origem do cenário distópico em que a trama se desenrola). Com um traço por vezes inconstante, o estilo de Marvin remete logo de cara ao do animador Genndy Tartakovsky, criador de Samurai Jack.

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Mas nem só de referências é composta a obra de Marvin. Retratando um futuro pós-apocalíptico, sem regras, sem leis, no qual nações inteiras foram devastadas pela recessão e o mundo entrou em colapso após a descoberta científica da existência e extinção de Deus, o autor deixa bem claro que bebe da fonte de clássicos do cinema e que outros títulos em quadrinhos lhe servem de inspiração, mas não deixa de usar seu repertório com estilo e originalidade, construindo uma mitologia própria, uma galeria de personagens com backgrounds riquíssimos e uma narrativa envolvente.

No primeiro volume de Caçada, intitulado O Reverendo, acompanhamos a história de Judas que atua como reverendo em uma cidade do deserto. Após o assassinato de sua esposa e filha, Judas declara vingança contra os executores que fazem parte da Ordem dos Pistoleiros e avança pelas páginas deixando rastros de sangue e carnificina por onde passa – inclusive, há de se parabenizar o projeto gráfico pela ideia muito bem sacada dos respingos de sangue nos cantos de cada uma das páginas da publicação.

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A sequência, Willian, A Face da Morte, narra a trajetória do personagem-título que, orientado por uma divindade virtual – um computador com personalidade própria que se considera Deus – tem a missão de encontrar o novo Messias. Enquanto Willian busca ser um garoto de verdade e seu misterioso passado é revelado, paralelamente, há a inserção de flashbacks que contam como o mundo chegou a esse estado de caos absoluto. Esta edição é a mais reverente ao cinema, mostrando este como um dos principais legados da humanidade, bem como a arte mais fascinante desenvolvida pelo homem. Nos detalhes, é possível notar referências visuais a filmes como Laranja Mecânica, Star Wars e O Poderoso Chefão.

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Caçada Até a Última Bala surgiu, primeiramente, como webcomic, conquistou um público de leitores fiel na internet e finalmente chegou ao mercado impresso pela Korja, editora de quadrinhos independentes que, além dos dois citados, lançou também o terceiro volume, Rodriguez, Um Legado de Balas, centrada na família cujo sobrenome dá título à publicação e compreende uma poderosa linhagem de pistoleiros – no que parece ser uma homenagem ao cineasta Robert Rodriguez, responsável por El Mariachi, A Balada do Pistoleiro e a adaptação cinematográfica de Sin City.

Dispondo de um repertório incrível, ainda que bastante pop, de referências e citações, Marvin orquestra sua história de maneira inteligente, segura e dinâmica, mostrando ao público sua evolução na composição do traço e coloração a cada volume. Caçada Até a Última Bala é recomendável para todo apreciador de quadrinhos independentes de qualidade e fãs de westerns, narrativas distópicas e do jeito tarantinesco de se contar uma história.

Andrizy Bento

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