Liga da Justiça

É curioso que, tanto nos créditos finais quanto iniciais, apenas o nome de Zack Snyder esteja grafado como diretor de Liga da Justiça, uma vez que, salvo seus vícios estéticos, a obra não poderia se distanciar mais de um filme do cineasta. Pelo contrário. O longa tem muito mais a cara de Joss Whedon – contratado durante a pós-produção do filme para escrever algumas cenas adicionais durante o processo de refilmagens e incumbido de dirigi-las quando Snyder teve de se afastar devido ao falecimento de sua filha.

Dessa forma, Liga da Justiça foge da identidade sombria dos longas que o precederam na cronologia do universo cinematográfico da DC, também dirigidos por Snyder, O Homem de Aço e Batman Vs Superman: A Origem da Justiça, que se levavam a sério demais. Isso pode até ser um demérito em termos de estilo e continuidade para os defensores da proposta de DCEU/Snyder. Porém, engrosso o coro daqueles que acreditam ser bem-vinda a mudança de tom, pois Liga da Justiça é um filme divertido e dinâmico de se assistir, ao contrário do modorrento Batman Vs Superman.

Em seus minutos iniciais, Liga da Justiça retrata um mundo constantemente aflito e uma população aterrorizada e temerosa após a morte do Superman (Henry Cavill). Cenário ideal para o surgimento de uma ameaça sem precedentes. O mítico Steppenwolf (Ciarán Hinds) regressa à Terra milhares de anos após ser repelido junto a seu exército de Pardemônios pelas forças unificadas das Amazonas, Atlantes, Deuses do Olimpo, exército de Lanternas Verdes e humanos na busca por proteger as Caixas Maternas (artefatos criados com a tecnologia do grupo celestial Novos Deuses e classificados como “computadores vivos”). Evitando, assim, que elas caíssem nas mãos de Steppenwolf e de seu mestre, Darkseid (um dos principais vilões da DC e que faz parte dos Novos Deuses). As Caixas foram, então, separadas e escondidas em diferentes locais ao redor do mundo, cada uma em posse de uma raça: Amazonas, Atlantes e humanos. A morte do Superman ocasiona a ativação das Caixas Maternas e Steppenwolf ressurge, atacando primeiramente Themyscira e, mais tarde, Atlantis, recuperando duas das Caixas.

O fato obriga diferentes metahumanos a formarem uma aliança, mesmo que se mostrem relutantes a princípio. Diana Prince (Gal Gadot) se une a Bruce Wayne (Ben Affleck), que procura convencer Arthur Curry (Jason Momoa) e Barry Allen (Ezra Miller) a integrar o time, enquanto Diana assume a responsabilidade de localizar e trazer Victor Stone (Ray Fisher) para a Liga.

Bruce decide utilizar a última Caixa Materna, em posse de Victor Stone, para ressuscitar o Superman. O plano funciona, mas não como o esperado. Por fim, Steppenwolf consegue recuperar a última Caixa Materna, dando início a um verdadeiro pandemônio. Cabe à Liga da Justiça combater o inimigo e evitar o caos e a destruição generalizada.

A liga é formada por:

Superman, um alienígena que dispensa grandes apresentações. Único sobrevivente do Planeta Krypton (de que se tem notícia até então), com habilidades sobre-humanas, incluindo superforça, visão de raio X e capacidade de vôo. Na Terra, assume a identidade de Clark Kent, jornalista do Planeta Diário e apaixonado pela colega de trabalho, Lois Lane (Amy Adams).

Mulher-Maravilha, Princesa Amazona egressa de Themyscira, filha de Hipólita (Connie Nielsen) e Zeus. Também conta com superforça, agilidade, resistência, sentidos aprimorados, além de sabedoria divina. Negociante de antiguidades na Terra, conhecida como Diana Prince.

Aquaman, ou Arthur Curry, o herói mais subestimado da DC, Herdeiro do trono da nação subaquática de Atlântida, protetor dos estados submarinos, híbrido de atlante e humano, cuja fisiologia lhe confere superpoderes como visão noturna, super força, resistência ao calor e, obviamente, a capacidade de viver em terras submersas.

Cyborg, ex-atleta de futebol americano, Victor Stone foi vítima de uma explosão em um laboratório que atingiu gravemente a maior parte de seu corpo. Usando de uma tecnologia experimental, advinda da Caixa Materna em posse da humanidade, seu pai, o brilhante cientista Silas Stone (Joe Morton), reconstruiu seu corpo ciberneticamente, lhe dando o poder de manipular a tecnologia, no entanto, fazendo de Victor Stone um homem revoltado e angustiado com sua aparência e limitações humanas. Vê na Liga da Justiça, um oportunidade de converter o que considera maldição em dom.

Flash, um velocista que atende pelo nome de Barry Allen e, que quando não está correndo na velocidade da luz, é um universitário de Central City, cujo pai foi preso injustamente pela morte da esposa, mãe de Barry. Também conta com metabolismo acelerado, como faz questão de enfatizar em uma conversa com Wayne.

Batman, Bruce Wayne, líder da Liga da Justiça e rico… O que me faz questionar a mim mesma e minhas escolhas, afinal ele é meu herói favorito. De qualquer modo, mesmo não dispondo de superpoderes, Batman atua como justiceiro e vigilante mascarado da corrupta e perigosa Gotham City, procurando combater a violência e o crime que assolam o submundo da cidade com o auxílio de inúmeros artefatos e intenso treinamento de combate.

Aliás, o próprio Batman assume um tom autossatiríco em alguns momentos do filme, zombando de sua condição de milionário sem poderes em meio a um time de metahumanos com capacidades sobre-humanas, o que até pode soar como uma descaracterização do personagem, mas funciona dentro da proposta da trama.

Embora não se pareça com um legítimo exemplar de Snyder em seu resultado final, os principais vícios do cineasta estão presentes: o slow motion excessivo e exaustivo, as cenas catárticas, os diálogos expositivos, o visual extasiante em detrimento da narrativa. Porém, a leveza, o bom-humor e a cartela de cores, bem como a inserção de momentos mais corriqueiros e triviais entre o supergrupo, suaviza a trama e torna o produto mais modesto e sem afetações, fugindo do pretenso tom épico e imponente de Batman Vs Superman.

Há uma boa dinâmica de equipe e todos os membros do time são introduzidos de maneira orgânica na trama. A proximidade e a formação da liga ocorrem de modo natural. É sempre uma tarefa difícil administrar um grande elenco, pois é constante o risco de negligenciar performances e personagens. Mas aqui, a proeza é alcançada com louvor, apenas o Gordon de J.K. Simmons é subaproveitado e até mesmo deslocado. Eis um personagem que merecia mais tempo de tela, uma vez que o ator honra o lugar que já pertenceu a Gary Oldman, que encarnou o papel na trilogia do Batman de Christopher Nolan.

Em termos estéticos, as tomadas aéreas se destacam pelo primor com que foram realizadas e os embates físicos são realmente vibrantes e intensos. Os heróis jamais utilizam seus poderes de maneira gratuita. A montagem é interessante, conferindo um bom senso espacial e temporal, além de um ritmo fluido e dinâmico ao longa. Até mesmo o slow motion que costuma me incomodar nos filmes de Snyder, é bem trabalhado (e justificado, convém dizer) nas cenas que envolvem o Flash.

Aliás, é irônico que,  para enfatizar a velocidade de Flash, haja um abuso excessivo da câmera lenta.

Claro que nem tudo o que reluz aqui é ouro. Há piadas que funcionam, outras não, o clímax se arrasta além do necessário, o visual megalômano tem seus excessos e a família russa de civis em fuga só existe para gerar uma empatia forçada. Quando socorrida pela Liga, transmitem o esplendor em seus rostos, a fim de simbolizar o fascínio que o time exerce no público. Não precisava estar lá, é redundante.

No que concerne às cenas pós créditos, imperativas no cinema de entretenimento atual, há uma ótima sequência envolvendo Flash e Superman, o que imprime um tom familiar muito bem-vindo, e outra que lança luz à vindoura formação da Legião do Mal, ainda que conte com o cast errado de Lex Luthor (Jesse Eisenberg).

No mais, não merece o bombardeio da crítica. Oras, se o tom adulto, sério e sombrio de Batman Vs Superman foi o que afastou o público das salas de projeção e causou as reviews furiosas de ditos especialistas para os principais portais de entretenimento e cultura pop do mundo, não é demérito nenhum investir em uma aventura mais próxima das HQs, despretensiosa e divertida. Não se trata de evocar o universo Marvel e copiar a mesma fórmula. Boa parte dos conceitos e do estilo adotados nos filmes anteriores da DC permanece, mas com um ar de leveza e dinamismo que faltava em suas incursões anteriores, livre dos pedantismos narrativos e com um tratamento de respeito aos personagens. Foi a busca de um meio-termo que faltava aos produtos da casa. Se não vos agradou, paciência. Mas o resultado ficou bem acima da média. Não é grandioso, épico, loquaz, passa longe da perfeição, mas é um ótimo filme e o melhor resultado que se poderia esperar de um longa da DC a essa altura do campeonato.

★★★

Andrizy Bento

 

Uma consideração sobre “Liga da Justiça”

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