Legião – Salvador Sanz

Imaginem um mundo mais escuro que o nosso… Onde a arte é só uma força destrutiva. O motor para a guerra e para a aniquilação.

A arte como uma força demoníaca é o mote de uma obra singular. Em Legião, quinto volume da Coleção Fierro, Salvador Sanz, um dos nomes mais proeminentes dos quadrinhos argentinos, parte de uma premissa instigante. No verso da publicação, encontramos as seguintes perguntas: Todas as músicas já foram criadas? Já vimos todas as cores existentes? Conhecemos todas as formas possíveis? Felizmente, não.

A cor que nunca deveria ser vista, a música que nunca deveria ser ouvida e a forma esculpida que nunca deveríamos conhecer abrem as portas para o inferno. A pintora Azul Cobalto descobre uma nova cor, indescritível e impossível de ser impressa ou reproduzida. O músico Félix passa um dia inteiro tocando sua guitarra e cria uma nova melodia. Alicia Parodi é a responsável por uma escultura e parece ser a única a ter ciência de que ela integra um conjunto que forma uma grande obra.

E o apocalipse ocorre.

Impressionante o grafismo e a coloração, especialmente a alternância de cores. O vermelho é predominante, os tons de azuis são bem pontuados e desempenham um papel singelo na construção da atmosfera da trama. E a forma como Sanz trabalha o preto e branco (especialmente no início, antes de a história ganhar cor) é digna de nota. O traço corrobora o clima perturbador instaurado desde o momento da chuva torrencial vermelha que açoita Buenos Aires, a cidade em que se situa a trama e onde os personagens vivem. Outro aspecto interessante é que,  por vezes, a arte parece evadir pela sarjeta.

Evocando H.P. Lovecraft, Sanz constrói uma obra assustadora, aterrorizante e visceral. Tanto em termos narrativos quanto plásticos, ela é rebuscada na concepção e representação do macabro. A trama segue em ritmo acelerado, sendo bastante dinâmica. Se há um porém, é o fato de que ela é relativamente curta. Ao término da revista, o leitor sente vontade de ver mais dessa história e conhecer mais de seus personagens. Afinal, eles são pouco profundos, só existindo mesmo em função da trama de horror que protagonizam. Por outro lado, isso pode até representar um ponto positivo, uma vez que não se corre o risco de se apegar aos personagens, o que poderia ser uma péssima ideia.

Há algumas lacunas na história – de onde surgem aquelas armas que dois dos personagens recorrentes sacam lá pelas tantas? Qual é o real propósito de Legião? Punir pela arte? Demonizá-la? No prefácio, assinado por Enrique Alcatena, o ilustrador (conterrâneo de Sanz) a classifica como um pesadelo gráfico e a obra realmente se estrutura como um pesadelo bizarro e surreal, sem pausa para respiro. Ao final de uma publicação densa, de teor subversivo , há mais perguntas do que respostas, mas fica claro que essa era a intenção de Sanz. Extremamente bem-sucedido em seu pesadelo gráfico, o quadrinista argentino assina uma graphic novel cuja leitura se conclui em vinte minutos, mas o impacto perdura por tempo indeterminado.

Andrizy Bento

 

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