Origens Secretas: Os Maiores Vilões de Gotham

Que o Batman conta com uma vasta e impressionante galeria de vilões, verdadeiros ladrões de cena, isso todo mundo sabe. Mas, além de viverem em constante guerra com o vigilante mascarado pelas ruas da obscura Gotham City, o que mais você sabe sobre eles?

É essa a premissa de Origens Secretas: Os Maiores Vilões de Gotham; apresentar um pouco do background dos criminosos fantasiados que assolam a cidade natal do Morcego. Mas não se deixe enganar, apesar do que aponta o título da publicação, a revista está bem longe de oferecer histórias de origens aprofundadas dos vilões. São, quando muito, uma espiada em alguns momentos-chave da vida desses personagens, no ponto de ruptura e no estopim para que eles se transformassem em bandidos sádicos e perversos.

Portanto, isso quer dizer que a HQ não é satisfatória? Bem, sim e não. Não porque se tratam de republicações de histórias apresentadas em outras edições do Morcego; algumas mais antigas (da época dos formatinhos), outros recentes (como Batman: O Que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas), o que dá aquela amarga e desconcertante impressão de caça-níquel. Além de serem concisas e apressadas demais. Por outro lado, a objetividade torna as leituras dinâmicas. Apesar da pressa, há excelentes quotes e passagens memoráveis. E também não dá para ignorar uma publicação que compila histórias assinadas pelo mestre Neil Gaiman, por Alan Grant e todo um time de peso no roteiro, ilustrações e arte-final.

E, assim que você termina, dá até mesmo vontade de ler novamente.

Em um plano geral, Origens Secretas apresenta um grupo de jornalistas que tem por objetivo produzir documentários tomando, literalmente, o partido dos vilões de Gotham, apesar dos conselhos (ou seria ameaça?) do Batman em pessoa. Com isso, a equipe de televisão visa provar que os monstros lendários que assombram a caótica cidade de Gotham são tão vítimas quanto os próprios cidadãos que já tiveram a desgraça de cair em suas mãos. Isso rende uma série de histórias fantásticas que mergulham na psique dos vilões e nos dão vislumbres de seus passados tortuosos e de seus segredos mais sombrios.

Pinguim estrela o primeiro arco, e sua jornada de horror atravessada até se tornar um dos mais icônicos vilões da DC Comics ganha foco. A figura do vilão é construída através dos anos de tortura e humilhação infligidos por um colega de escola. A violência física e psicológica operam no garoto curioso, apaixonado por livros e pássaros, uma transformação trágica, de adolescente brilhante com um futuro promissor a psicopata. Nesta história, ele experimenta o doce sabor da vingança contra seu algoz dos tempos de infância. E essa vingança tem gosto de peixe.

O segundo arco traz o texto incomparável de Gaiman e é protagonizado pelo Charada. O autor imprime seu estilo característico em “Quando” é uma porta, no qual a equipe de reportagem, em busca de respostas, acaba confundido pelos enigmas inquietantes do Charada, o que apenas sedimenta sua figura misteriosa, dissimulada e estrategista, para quem o crime é pura diversão e a ordem é fazer de Gotham o palco de suas ilustres e irreverentes artimanhas.

Algumas Pessoas Gostam de Ir à Praia é o excelente título do arco que narra a origem de Duas Caras. Menos lírica e filosófica das histórias presentes nessa espécie de antologia, esta nos presenteia com um texto que explora de forma precisa e magistral a dualidade de Harvey Dent. Seu único pecado é cometer o clichê de utilizar o recurso da damsel in distress. Mas dá para relevar diante da série de diálogos sensacionais que o arco nos proporciona. O homem incorruptível, cujo discurso era firmemente calcado na lei e na justiça, tem sua vida mudada drasticamente após um acidente que desfigura seu rosto. A partir daí, ele deixa que o destino comande seus próximos passos e ações. Uma moeda, com duas caras, é arremessada ao alto e esta guia suas decisões. Um dos simbolismos mais certeiros presentes nas páginas de Batman.

Hera Venenosa surge manipuladora em Pavana, também roteirizada por Gaiman.  Usando sabiamente o artifício da sedução, Hera envolve um agente penitenciário em um jogo mental tortuoso. A arte é eficiente ao representar o quão cativante Hera consegue ser sem fazer o mínimo esforço; e ao expressar o desejo de poder que exala pelos seus poros e encarcera os homens ao seu redor. A sarjeta vermelha é outra ótima sacada.

Um momento acertado da publicação é o que mostra os cidadãos de Gotham City sendo entrevistados pelo repórter de televisão, comentando o que acham a respeito dos criminosos que povoam a cidade e do próprio Batman em si. As respostas são hilárias e dão uma perspectiva dos valores distorcidos dos ditos cidadãos de bem, provavelmente afetados pelo ambiente onde vivem – uma cidade corrupta e mergulhada no caos e criminalidade. Um taxista, por exemplo, alega que o Pinguim é um cara legal apenas por ter sido generoso com ele na hora da gorjeta.

Para finalizar, há uma história extra de apenas quatro páginas protagonizada pelo Coringa. Esta, que pode ser considerada a cereja no topo do bolo, é toda em preto e branco e, não à toa, intitulada A Black and White World. Novamente, contando com a assinatura de Neil Gaiman, a história narra os bastidores de uma típica HQ do Batman, como se estivéssemos vislumbrando atrás do palco, vendo atores de teatro lendo seus scripts e aguardando a chamada do diretor para se posicionarem em cena. Batman e Coringa aparecem como colegas de trabalho, discursando acerca dos ossos do ofício;  como se personagem de história em quadrinhos se tratasse de uma singela profissão (e mal remunerada, pelo visto). Metalinguística, funciona como uma crítica afiada e perspicaz à indústria das histórias em quadrinhos.

Vale a pena ter na estante, pois, apesar de uma compilação de histórias que os fãs do Morcego – e principalmente de seus arqui-inimigos – já conhecem de outras publicações, trata-se de um título bem organizado, com um fio condutor que entrelaça os diferentes arcos e direciona a narrativa a um lugar, de fato, interessante. E, como mencionado alguns parágrafos acima, dá vontade de ler de novo.

Para quem é fã dos vilões de Batman como eu e esperava uma grande trama sobre suas origens, corre o extremo risco de se decepcionar. Mas para quem tem conhecimento de que se tratam de republicações de histórias curtas já lançadas anteriormente, não passa por esse perigo.

De qualquer forma, é mais um atestado que há muitas semelhanças entre o herói e seus inimigos. São todos malucos atormentados e fantasiados que atuam nas sombras de Gotham City. A única diferença é que o Batman luta do lado dos bonzinhos, ainda que ferindo, vez ou outra, os direitos civis 😉

Andrizy Bento

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